quarta-feira, 8 de março de 2017

Quem diria?

Quem nos via
todo dia
na rotina
sem clima

Quem nos via?
Quem ouvia?

Quem diria
e nos veria
assim, em fim,
felizes,
completos

cada
um
por
si?

terça-feira, 14 de junho de 2016


Ensinar a viver é ensinar a pescar. É ensinar a jogar a linha e ter a paciência necessária para recolher os frutos que a vida te traz.

É ter a paciência e o esforço para conquistar aquilo que se almeja. Uma família, um carro, um amor maior do mundo.

É reconhecer a ganância, a cobiça e a mesquinharia. Aprender que quando a gente não vai pra frente, às vezes a culpa é do outro.

Pra pescar a gente tem que ter calma. Pra viver também. A calma e a serenidade de ter um beijo gostoso de boa noite e de manhã cedo. De ter a certeza de que minha mamadeira é a melhor do mundo. De estar ciente de que um anjo fica com medo de dormir se eu não estiver em casa.

Eu sigo pescando e nadando nesse mar que conquistei pra mim, depois de ter passado tanto tempo molhando os pés em água rasa.

Mesma água rasa na qual tu finges nada, quando em verdade está esperneando, sabendo que te afogas.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Sobre o trigo (embora nada a ver)



Tic, toc, tic, toc...
Finalmente acordei. O despertador tocava há seis anos. Foi difícil pressionar o “soneca”. Lavei a cara na pia do banheiro e, diante do espelho, um estranho me olhou.
- E aí? – Perguntei
- Tranquilo. – respondeu
Nervoso, sem saber quem era aquele cara e o que queria, insisti:
 - Qual é?
- De boa. É bem contigo que eu quero falar. – Ele disse.
Surtei. Passei a vida pagando impostos, contribuindo pro INSS, votando conscientemente pra, agora, isso? Inviável. Protesto, meretíssimo, esse ser é um estranho.
- Tu acha mesmo? – perguntei
 – Olha pra ti e olha pra mim... Eu sou tu! – ele falou, como se soubesse mais que eu.
Duvidei. Pois simplesmente não poderia ser eu. Como EU, logo EU, poderia estar assim tão...tão...tão careta? Logo eu, que me aventurei e desaventurei na adolescência e no período pré adulto?
- Eu?
- Exato, tu mesmo.
Mas como? Álcool, maconha, cocaína, anfetamina, ritalina, rivotril, diazepan, haxixe... Nada passou despercebido nessa busca imensa e inexata de alguma coisa. E tudo deu em nada.
- Tu não é o ******? - Eis a pergunta que eu tanto temia. Era eu, sim. Mas com um passado atordoado, tal pergunta soava quase como um castigo, uma maneira de trazer à tona tudo que eu tentava a todo custo esquecer.
- Eu? Sim... Bem eu. Depende, qual é a acusação? – A brincadeira, sempre. Pra desestimular outra piada qualquer.
- Bah, cara, ouvi tua música... Curti pra caralho. Fala bem sobre um lance que eu vivi.
- Tá brincando! Sério?
- Meu, de boa.
- Pôxa, valeu... Bah, nem sei o que dizer... Obrigado.
- Capaz...

Medo do Escuro
(letra e música: Igue Morelli / Ivanor Kieling)

Mãe, vê se me deixa em paz
eu to indo e não volto mais
Eu quero é ser feliz
Como eu sempre quis

Já comprei minha passagem
Arrumei toda minha bagagem
Eu to indo embora
e tem que ser agora!

Terminei com a Fernanda,
mostrei quem é que manda
e agora eu vou

Perdi meu medo do escuro
Agora estou seguro
de onde eu quero estar:
Com os meus amigos
que estão comigo
aonde quer que eu vá.

(foto: http://geoconceicao.blogspot.com.br/2011/06/revolucao-verde-2.html)

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Vertigem

Vertigem

Ao te ver, altiva,
autista autointitulo-me.
Pois esse ver-te
(que de mim verte),
me prende, aprende,
apreende,diverte.

Em ti, encontro a certeza,
enquanto (e quanto!),
em contrapartida,
encontro a partida.
E, se parte, toma meu peito,
reparte.Toma algo que é meu.

Tens de mim um pedaço de vida.
Em troca, quero também algo teu.
Se já tens de mim um pedaço,
divida.

(http://www.lojamais.com.br/Loja/Emp_MostraProd.aspx?codProduto=552922&codemp=38484)

sábado, 4 de agosto de 2012

Ágata


Não que fosse bonita. Digo, não era feia, mas estava longe de gozar daquela beleza fascinante que a TV costuma derramar sobre nós. Assim, deitada, parecia serena e desprotegida, com seu seio despontando para fora do lençol que a cobria, o mamilo apontado em direção ao teto. Longe de mim querer despertá-la daquele torpor tão tranquilo e acabar desmanchando aquela pintura diante dos meus olhos. Levantei com cuidado e saí do quarto. Vênus repousava no acalento das canções medievais.
Ainda nu na cozinha, abri uma cerveja e bebi quase de um gole só. A ingestão repentina ainda pela manhã me proporcionava uma sensação prazerosa, como se meu corpo estivesse sendo abraçado pela morfina. A primeira cerveja do dia trazia de volta a embriaguez afastada pelo sono e pelo sexo da última noite. Era como um gatilho para retornar ao estado anterior, um tentáculo que me arrancava da realidade e me puxava carinhosamente para um lugar feliz e harmonioso.
Parei na porta do quarto. Ela ainda dormia, agora virada de frente para a parede, de costas para mim. Sob o lençol, era possível ver os contornos do seu corpo. Tinha cabelos loiros, tintura pesada, e sombras escuras debaixo dos olhos. Nico. Femme Fatale. Seja meu espelho, docinho, e reflita em sua pele a delicadeza existente sob a minha carapaça. Sunday Morning. Todas as festas de amanhã. Minha Vênus em pele.
No banheiro, o resultado dos excessos. Minhas olheiras despontavam arroxeadas. Quando abaixei a cabeça para mijar, fiquei tonto, apoiei a mão na parede. Quando o jato saiu, senti como se minha uretra estivesse em chamas.
Na sala, as garrafas vazias formavam um mosaico que falava sobre a noite anterior. Minha mesa de centro com tampo de vidro estava repleta de migalhas de pó, com cédulas enroladas em volta. Achei o cartão de crédito dela, com a borda umedecida. Ágata. Ágata era uma pedra. Ou uma jóia? Pensei em cristais. Em oceanos azuis de águas plácidas, mesmo sabendo que não fazia sentido. Mas “Ágata” me lembrava “água”. Volúvel, molhada, envolvente. Fascinante. Águata. Te chama, te embala e te afoga.
Sentei no sofá e peguei uma carteira de cigarro que estava ali. Tirei um. Passei por debaixo do nariz e senti o cheiro de fumo. Diziam que ali havia quatromilequinhentas substâncias cancerígenas. Como cabiam todas? Acendi e traguei. Minha cabeça girou, quase vomitei. Nunca havia desenvolvido o hábito, talvez estivesse velho demais pra isso. Tossi, cuspi no carpete e apaguei o crivo na mesa de centro. O ministério da saúde não adverte que cigarro tem gosto ruim. Continuei sentado. Olhei meu saco. Balancei o pau pra ver se endurecia. Desisti. Fechei os olhos. Cantei Love Me Tender. Abri os olhos. Cantei Bad To the Bone. Fiz uma careta. Levantei e voltei pro quarto.
Quando entrei, Ágata (Águata) estava nua juntando suas roupas. Quando me viu (olhos de oceano), se assustou, cobriu-se com o lençol. Riu (sorriso de maré alta), largou o lençol e veio me abraçar. Me beijou nos lábios (cigarro), me olhou nos olhos e continuou sorrindo. Corri a mão por seus flancos até os quadris, me sentindo sem jeito. Aquilo me incomodava. Seus olhos de maresia me puxando para o fundo. Antes que me afogasse, antes que Medusa me fizesse pedra, paralisado para até onde o tempo alcançasse, falei
- Querida, eu acho que é melhor tu ir agora.
Não sei que rumos ela tomou, se procurou outros navegantes perdidos ou se arrastou alguém para suas ondas que estouravam nos rochedos. Eu, até hoje, não perdi meu medo do mar.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Como era antes.

Depois que o sol entrou pela janela que eu tinha deixado aberta na noite anterior e bateu direto na minha cara, não consegui mais dormir. Não bastava minha dor de cabeça, ainda tinha essa porra de sol pra encher o saco. Levantei devagar e vesti a primeira calça que achei jogada pelo chão. Parei diante da janela e olhei pra baixo. De cima, tudo parecia tranquilo. E de fato é. Quando não se está perto, é impossível ter noção do que acontece. Tudo parece sereno. Queria ver quem tinha coragem de enfiar a cara no meio da multidão que fervilhava lá embaixo, na calçada, e segurar no peito aquela insanidade, aquela manada enfurecida que disparava de e para todos os lados. Eu, tomado pelo comodismo que apredera a pouco, decidi fechar a janela e ficar em segurança. Já tinham me ensinado que era bem melhor assim.
Quando cheguei na cozinha, tive vergonha de mim mesmo. Como as coisas foram parar naquele estado? Em que momento eu desliguei o piloto automático e simplesmente parei de me importar com a casa e todo o resto? Melhor não pensar, a menos que quisesse mesmo lembrar a resposta.
Sobre a mesa atrolhada de restos de tudo que se pode imaginar, identifiquei um sanduíche de queijo que, pelo cheiro, estava prestes a ser catalogado como novo ser vivo. Joguei pra Lua, que se afastou e me olhou com desprezo. Foda-se a gata, pensei.
Em cima da pia, precisei decidir entre um café frio e uma cerveja quente. Se houvesse cianeto no cardárpio, a escolha seria mais óbvia. Atravessei aquilo que parecia um cenário de guerra e fui pro banheiro, liguei o chuveiro e me sentei no chão, de roupa mesmo, sentindo a água gelada cair na minha cabeça. De olhos fechados, senti o frio tomar conta do meu corpo, como se milhares de agulhas perfurassem minha pele até eu estar sedado, anestesiado. Logo a água e a cerveja me deixaram num leve e agradável estado de torpor. Equanto bebia, me imaginava sob uma cachoeira, longe de tudo, sem ninguém por perto. Podia quase sentir o cheiro do mato em volta de mim, o vento audível nas folhas. Ilusão. Deixei as roupas no chão do banheiro, me enrolei num cobertor e sentei no chão da sala vazia. Lua me rondou e miou alto. "Também tô com fome, querida". Me olhou e miou de novo, mais alto. "Também sinto, Lua. Mas agora somos só nós dois outra vez. Como era antes".

domingo, 4 de março de 2012

Procura


O pôr-do-sol visto do gasômetro é realmente lindo. E pensar que eu vivi tanto tempo sem desfrutar dessa visão. Sentados na grama à beira do Guaíba, evitávamos nos olhar. Eu me sentia culpado.

- Tu volta?
- Volto.
- Quando?
- Quando for a hora.
- E como tu vai saber quando é a hora?
- Quando eu achar o que to procurando.
- E o que é?
- Não sei.
- Se tu não sabe o que é, como vai procurar?
- Quando eu achar, vou saber.
- Daí tu volta?
- Volto.

Me estendeu a lata. Tomei um gole. Nossos olhos ainda olhavam o sol mergulhando no Guaíba.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Nesses Dias

Nesses dias em que eu não saio do quarto, em que fico ouvindo o mesmo maldito disco da Elis Regina, com a janela fechada  e uma jarra de café na minha frente... Nesses dias em que tudo que ela canta parece ser pra mim, nesses dias de merda em que eu sou só lembranças, nesses dias em que eu sinto como se um pedaço arrancado do meu corpo pulsa vivo perto de mim, nesses dias em que eu fecho os olhos e finjo, sim, eu finjo, finjo que tudo ainda está do mesmo jeito, tudo está igual, nada mudou. Nesses dias em que eu abro os olhos e vejo que sim, tudo mudou, e as coisas nunca mais voltarão ao lugar. Nesses dias em que eu sinto o peso da derrota, a dor do dano. Nesses dias em que eu me pergunto 'vale mesmo a pena?', e nesses mesmos dias em que eu sou tomado de certeza de que meu lugar era ali e em nenhum outro.

Nesses dias eu queria fumar.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Desabafo de alguém que escreve

“Escrever (es-cre-ver)
v.t.
Exprimir-se por sinais gráficos, caracteres convencionais: escrever seu nome.
Redigir, compor: escrever uma obra.
Ortografar: como se escreve essa palavra?
Corresponder-se, informar por carta: escrevo-lhe que aceito.
Sustentar, afirmar que: Bergson escreve que...
Fig. Assinalar, gravar: na fronte leva escrita a sua desonra.
Estava escrito, fórmula para expressar resignação.”

Sempre escrevi. Tudo bem, nem sempre, mas desde os cinco anos. E não apenas reproduzia signos gráficos ou produzia enunciados banais (“leite, pão, margarina, café e queijo”) ou objetivos (“mãe, deixe a porta aberta. Estou sem chave. Beijo). Pouco tempo depois de ter domínio daqueles desenhos que a caneta deixava no papel, e que diziam tanta coisa!, passei a escrever palavras que formavam frases que não relatavam exatamente fatos cotidianos. Falavam sobre coisas que não aconteciam. Se eu falasse, chamariam “mentiras”, mas, como eu escrevia, eram “contos”, “poemas” e coisas assim.

Escrevia muito, sobre várias coisas. E, de certa forma, tudo que eu criava me envolvia de uma maneira que já era difícil definir a realidade daquilo que eu escrevia. Era como se o papel fosse uma extensão de mim, uma vida que eu vivia quando a minha já não era suficiente. Era um refúgio, um inferno. Um paraíso e um barco em alto mar, que balançava na força das ondas e que resistia à fúria das tempestades. Escrever era tudo o que eu queria viver.

Das coisas que escrevia, às vezes gostava de algo. Elogios? Recebia muitos, mas nunca aceitei. Não pensava ser bom escritor, nem gostava de tudo que acabava caindo no papel. Às vezes, algum caía em meu agrado, mas não mais do que isso. Almejava, sim, melhorar naquilo que fazia. Escrever mais, melhor. Publicar, quem sabe? Enfim, sempre achei que estava no caminho certo, e sempre quis continuar escrevendo.

Quando comecei a estudar a teoria da literatura, foi como se recebesse um soco. Com declarações fortes, a professora afirmava :” Isso é certo, isso é errado. Isto é bom, aquilo é ruim. A literatura deve ser assim, não assim!”. Eu jamais ouvira falar sobre imagens sensoriais, mimeses, plurissignificação ou coisas semelhantes. Descobri que tudo o que eu tinha escrito naqueles anos não era bom. As pessoas gostavam porque não conheciam boa literatura.

Tentei mudar, juro. Por vezes tentei colocar nas histórias tudo aquilo sobre o que os teóricos falavam, mas foi impossível. Quando chegava no ponto final, tudo que estava ali era uma expressão pura de mim. Nada mais. Por mais que eu tentasse substituir o sentimento por racionalidade, o resultado era sempre a essência do que eu queria dizer. Pingava sangue.

Desisti. Não há um escritor em mim. Não um que possa ser levado a sério, ao menos. Meus escritos continuarão apenas relatando coisas simples, sobre o que eu sinto ou imagino sentir. Continuarão sendo extensões das vidas que não vivo.