Uma tentativa precocemente frustrada de reativar o finado "Entre dois Cafés". Quinquilharias literárias, traquitanas escritas e republicações, na íntegra, editadas ou "revisited", de antigos e dispersos escritos.
terça-feira, 14 de junho de 2016
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Sobre o trigo (embora nada a ver)
terça-feira, 6 de agosto de 2013
Vertigem
Ao te ver, altiva,
autista autointitulo-me.
Pois esse ver-te
(que de mim verte),
me prende, aprende,
apreende,diverte.
Em ti, encontro a certeza,
enquanto (e quanto!),
em contrapartida,
encontro a partida.
E, se parte, toma meu peito,
reparte.Toma algo que é meu.
Tens de mim um pedaço de vida.
Em troca, quero também algo teu.
Se já tens de mim um pedaço,
divida.
(http://www.lojamais.com.br/Loja/Emp_MostraProd.aspx?codProduto=552922&codemp=38484)
sábado, 4 de agosto de 2012
Ágata
terça-feira, 24 de abril de 2012
Como era antes.
Quando cheguei na cozinha, tive vergonha de mim mesmo. Como as coisas foram parar naquele estado? Em que momento eu desliguei o piloto automático e simplesmente parei de me importar com a casa e todo o resto? Melhor não pensar, a menos que quisesse mesmo lembrar a resposta.
Sobre a mesa atrolhada de restos de tudo que se pode imaginar, identifiquei um sanduíche de queijo que, pelo cheiro, estava prestes a ser catalogado como novo ser vivo. Joguei pra Lua, que se afastou e me olhou com desprezo. Foda-se a gata, pensei.
Em cima da pia, precisei decidir entre um café frio e uma cerveja quente. Se houvesse cianeto no cardárpio, a escolha seria mais óbvia. Atravessei aquilo que parecia um cenário de guerra e fui pro banheiro, liguei o chuveiro e me sentei no chão, de roupa mesmo, sentindo a água gelada cair na minha cabeça. De olhos fechados, senti o frio tomar conta do meu corpo, como se milhares de agulhas perfurassem minha pele até eu estar sedado, anestesiado. Logo a água e a cerveja me deixaram num leve e agradável estado de torpor. Equanto bebia, me imaginava sob uma cachoeira, longe de tudo, sem ninguém por perto. Podia quase sentir o cheiro do mato em volta de mim, o vento audível nas folhas. Ilusão. Deixei as roupas no chão do banheiro, me enrolei num cobertor e sentei no chão da sala vazia. Lua me rondou e miou alto. "Também tô com fome, querida". Me olhou e miou de novo, mais alto. "Também sinto, Lua. Mas agora somos só nós dois outra vez. Como era antes".
domingo, 4 de março de 2012
Procura
O pôr-do-sol visto do gasômetro é realmente lindo. E pensar que eu vivi tanto tempo sem desfrutar dessa visão. Sentados na grama à beira do Guaíba, evitávamos nos olhar. Eu me sentia culpado.
- Tu volta?
- Volto.
- Quando?
- Quando for a hora.
- E como tu vai saber quando é a hora?
- Quando eu achar o que to procurando.
- E o que é?
- Não sei.
- Se tu não sabe o que é, como vai procurar?
- Quando eu achar, vou saber.
- Daí tu volta?
- Volto.
Me estendeu a lata. Tomei um gole. Nossos olhos ainda olhavam o sol mergulhando no Guaíba.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Nesses Dias
Nesses dias eu queria fumar.
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Desabafo de alguém que escreve
Sempre escrevi. Tudo bem, nem sempre, mas desde os cinco anos. E não apenas reproduzia signos gráficos ou produzia enunciados banais (“leite, pão, margarina, café e queijo”) ou objetivos (“mãe, deixe a porta aberta. Estou sem chave. Beijo). Pouco tempo depois de ter domínio daqueles desenhos que a caneta deixava no papel, e que diziam tanta coisa!, passei a escrever palavras que formavam frases que não relatavam exatamente fatos cotidianos. Falavam sobre coisas que não aconteciam. Se eu falasse, chamariam “mentiras”, mas, como eu escrevia, eram “contos”, “poemas” e coisas assim.
Escrevia muito, sobre várias coisas. E, de certa forma, tudo que eu criava me envolvia de uma maneira que já era difícil definir a realidade daquilo que eu escrevia. Era como se o papel fosse uma extensão de mim, uma vida que eu vivia quando a minha já não era suficiente. Era um refúgio, um inferno. Um paraíso e um barco em alto mar, que balançava na força das ondas e que resistia à fúria das tempestades. Escrever era tudo o que eu queria viver.
Das coisas que escrevia, às vezes gostava de algo. Elogios? Recebia muitos, mas nunca aceitei. Não pensava ser bom escritor, nem gostava de tudo que acabava caindo no papel. Às vezes, algum caía em meu agrado, mas não mais do que isso. Almejava, sim, melhorar naquilo que fazia. Escrever mais, melhor. Publicar, quem sabe? Enfim, sempre achei que estava no caminho certo, e sempre quis continuar escrevendo.
Quando comecei a estudar a teoria da literatura, foi como se recebesse um soco. Com declarações fortes, a professora afirmava :” Isso é certo, isso é errado. Isto é bom, aquilo é ruim. A literatura deve ser assim, não assim!”. Eu jamais ouvira falar sobre imagens sensoriais, mimeses, plurissignificação ou coisas semelhantes. Descobri que tudo o que eu tinha escrito naqueles anos não era bom. As pessoas gostavam porque não conheciam boa literatura.
Tentei mudar, juro. Por vezes tentei colocar nas histórias tudo aquilo sobre o que os teóricos falavam, mas foi impossível. Quando chegava no ponto final, tudo que estava ali era uma expressão pura de mim. Nada mais. Por mais que eu tentasse substituir o sentimento por racionalidade, o resultado era sempre a essência do que eu queria dizer. Pingava sangue.
Desisti. Não há um escritor em mim. Não um que possa ser levado a sério, ao menos. Meus escritos continuarão apenas relatando coisas simples, sobre o que eu sinto ou imagino sentir. Continuarão sendo extensões das vidas que não vivo.



