terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Nesses Dias

Nesses dias em que eu não saio do quarto, em que fico ouvindo o mesmo maldito disco da Elis Regina, com a janela fechada  e uma jarra de café na minha frente... Nesses dias em que tudo que ela canta parece ser pra mim, nesses dias de merda em que eu sou só lembranças, nesses dias em que eu sinto como se um pedaço arrancado do meu corpo pulsa vivo perto de mim, nesses dias em que eu fecho os olhos e finjo, sim, eu finjo, finjo que tudo ainda está do mesmo jeito, tudo está igual, nada mudou. Nesses dias em que eu abro os olhos e vejo que sim, tudo mudou, e as coisas nunca mais voltarão ao lugar. Nesses dias em que eu sinto o peso da derrota, a dor do dano. Nesses dias em que eu me pergunto 'vale mesmo a pena?', e nesses mesmos dias em que eu sou tomado de certeza de que meu lugar era ali e em nenhum outro.

Nesses dias eu queria fumar.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Desabafo de alguém que escreve

“Escrever (es-cre-ver)
v.t.
Exprimir-se por sinais gráficos, caracteres convencionais: escrever seu nome.
Redigir, compor: escrever uma obra.
Ortografar: como se escreve essa palavra?
Corresponder-se, informar por carta: escrevo-lhe que aceito.
Sustentar, afirmar que: Bergson escreve que...
Fig. Assinalar, gravar: na fronte leva escrita a sua desonra.
Estava escrito, fórmula para expressar resignação.”

Sempre escrevi. Tudo bem, nem sempre, mas desde os cinco anos. E não apenas reproduzia signos gráficos ou produzia enunciados banais (“leite, pão, margarina, café e queijo”) ou objetivos (“mãe, deixe a porta aberta. Estou sem chave. Beijo). Pouco tempo depois de ter domínio daqueles desenhos que a caneta deixava no papel, e que diziam tanta coisa!, passei a escrever palavras que formavam frases que não relatavam exatamente fatos cotidianos. Falavam sobre coisas que não aconteciam. Se eu falasse, chamariam “mentiras”, mas, como eu escrevia, eram “contos”, “poemas” e coisas assim.

Escrevia muito, sobre várias coisas. E, de certa forma, tudo que eu criava me envolvia de uma maneira que já era difícil definir a realidade daquilo que eu escrevia. Era como se o papel fosse uma extensão de mim, uma vida que eu vivia quando a minha já não era suficiente. Era um refúgio, um inferno. Um paraíso e um barco em alto mar, que balançava na força das ondas e que resistia à fúria das tempestades. Escrever era tudo o que eu queria viver.

Das coisas que escrevia, às vezes gostava de algo. Elogios? Recebia muitos, mas nunca aceitei. Não pensava ser bom escritor, nem gostava de tudo que acabava caindo no papel. Às vezes, algum caía em meu agrado, mas não mais do que isso. Almejava, sim, melhorar naquilo que fazia. Escrever mais, melhor. Publicar, quem sabe? Enfim, sempre achei que estava no caminho certo, e sempre quis continuar escrevendo.

Quando comecei a estudar a teoria da literatura, foi como se recebesse um soco. Com declarações fortes, a professora afirmava :” Isso é certo, isso é errado. Isto é bom, aquilo é ruim. A literatura deve ser assim, não assim!”. Eu jamais ouvira falar sobre imagens sensoriais, mimeses, plurissignificação ou coisas semelhantes. Descobri que tudo o que eu tinha escrito naqueles anos não era bom. As pessoas gostavam porque não conheciam boa literatura.

Tentei mudar, juro. Por vezes tentei colocar nas histórias tudo aquilo sobre o que os teóricos falavam, mas foi impossível. Quando chegava no ponto final, tudo que estava ali era uma expressão pura de mim. Nada mais. Por mais que eu tentasse substituir o sentimento por racionalidade, o resultado era sempre a essência do que eu queria dizer. Pingava sangue.

Desisti. Não há um escritor em mim. Não um que possa ser levado a sério, ao menos. Meus escritos continuarão apenas relatando coisas simples, sobre o que eu sinto ou imagino sentir. Continuarão sendo extensões das vidas que não vivo.

domingo, 2 de outubro de 2011

Lançamento da antologia Ventos Poéticos


Lançamento de VENTOS POÉTICOS na Livraria Martins Fontes da Paulista, às 15h30min, em São Paulo/SP

domingo, 10 de julho de 2011

Gabriela

- Grandes merdas.

E foi assim que eu conheci Gabriela, quando, num ímpeto de pudor que eu bem sabia não ser meu, procurei o emissor dessa interjeição tão corriqueira, mas que, no momento, me pareceu demasiadamente inesperada. Então vi. Vi os cabelos castanhos aparados antes dos ombros estreitos de menina não crescida ainda. Vi a pele também castanha, indicando a composição mestiça daquele corpo pequeno e frágil. Mas acima de tudo, vi os olhos, do mesmo tom, com um brilho de sabedoria, astúcia e malandragem típica da idade.
Gabriela não era bonita, comparada às outras meninas da classe. Ao invés das roupas apertadas, acentuando curvas ainda em formação, Gabriela vestia calças jeans e uma camiseta larga, cor de rosa. Rosa choque, rosa forte. Gabriela ia tão além daquele rosto pequeno entre tantos corações pequenos.
Durante as aulas, a cabeça pairava longe das orações subordinadas... Gabriela tinha a alma tão grande que achava que o mundo não era capaz de lhe suportar. E foi assim que, ao lhe explicar pela terceira vez a importância (que eu nem acreditava mais) que tinham as orações subordinadas, que Grabriela soltou um "grandes merdas". Assim, sem querer. Mas sincero.
Corou e quase corei também, não estivesse tão acostumado a reações semelhantes. Mas vinda de Gabriela, a frase soava diferente. Soava como um apelo de uma alma aprisionada no subúrbio não asfaltado da cidadezinha de merda que sufocava sonhos. E concordei. Grandes merdas. Grandes merdas as subordinações para nós que já somos subordinados a tanta falta de esperança. Nós, que nos bastamos em sobreviver.
Naquele momento, Gabriela olhou em meus olhos quase sem notar, e eu vi, quase sem perceber, aquele brilho intenso que seus olhos, quase sem saber, deixavam escapar e que o coração, quase sem acreditar, dizia "falta pouco".

domingo, 26 de junho de 2011

Antologia Ventos Poéticos


"A poesia de cada dia vinda de todos os lugares. Como o vento que sopra e traz novas emoções, sentimentos, e desperta curiosidade. Às vezes apenas como uma brisa leve ao amanhecer. Às vezes como um tufão ao final da tarde anunciando tempestade. Os Ventos Poéticos vêm para manifestar o que há no âmago de cada ser; o que foi, o que é, e o que será melodia no assovio do vento em cada canto do mundo."



Igue dá um passo nessa história de escrever.

Na antologia, um poema inédito: VERTIGEM

sábado, 26 de março de 2011

Fragmentos de Adriana

Links:

Parte I
Parte II
Parte III
Parte IV (Hortelã & Canela)

Fragmentos de Adriana - Parte IV (Hortelã & Canela)

A lâmina afiada da faca reluzia à luz daquele sol matinal de um domingo de outono que entrava pela janela da cozinha e formava desenhos na parede do outro lado enquanto eu cortava pedaços de carne e deixava-os ao lado. O aroma do alho impregnava o ambiente, mesclado com café e carne fresca. Ingredientes organizadamente separados e espalhados pela mesa, enquanto eu manipulava carnes e legumes para o almoço.

O tempo corre sem percebermos. Alguns anos vazios passaram-se sem Adriana. Sem quem? Não sei. Já tinha esquecido. Tinha esquecido dela e de mim naquele período confuso, talvez convulso, em que me entreguei de olhos fechados ao sabor das vontades do destino, sem me preocupar muito com as consequências das minhas atitudes.
Durante esse tempo, meu amor por Adriana foi doentio como nunca, me matava lentamente e de forma dolorosa. Eu tratava Adriana como um tumor maligno, e tínhamos uma espécie de acordo mórbido e silencioso: Se ela me mantivesse vivo, eu lhe manteria amada. Me matasse e passaria o resto de seus dias sem a lembrança de ter alguém desejando-lhe. Triste constatação, mas um contrato de tal dimensões realmente foi necessário.

Tirei as folhas de alguns ramos de hortelã e as cortei em pequenos pedaços. Quando joguei na panela, entre os pedaços de carne e o alho já dourado, o aroma fresco e adocicado da erva invadiu o ambiente, criando uma atmosfera agradável e aconchegante.

Adriana, como eu soube depois, tivera um caminho diferente depois de ter me mandado embora. Fez as viagens que tanto queria, conheceu uma boa parte do mundo (" - Pa - tchou - ly. É da Indonésia"), enquanto eu traçava o caminho apartamento-bar-apartamento. Conheceu pessoas, talvez umas mais que outras (" - Moramos um tempo juntos, mas era mais a minha necessidade de não ficar sozinha. Eu precisava de abrigo, e ele estava lá. Só isso"). Eu? Bem... Conheci todas as mulheres possíveis e nenhuma ao mesmo tempo.

Lembro que naquela manhã a televisão me contou que Adolfo Casares havia morrido. Casares nunca quis morrer. Ele sempre teve medo da morte e não escondia isso. Fiquei triste com aquela notícia. Daí o telefone tocou. Cassares partia e Adriana voltava. Cômico, não? Não. Sem muitas explicações, marcamos um almoço. E cá estou preparando-o, entre hortelãs e alho dourado.

A campainha tocou, abri a porta. Nossa... Ela continuava linda, embora agora parecesse mais segura. As linhas que o tempo marcara em seu rosto lhe davam mais polidez e credibilidade. Os cabelos continuavam pretos como sempre, mesmo que fossem pintados. Andava bem vestida, tinha um perfume suave. Era Adriana, mesmo que não fosse, mesmo depois de alguns anos e muitos rancores, parecia tão familiar como se tivesse apenas levantado para buscar algo na cozinha, e agora voltava mais velha e mais linda do que nunca.

- Oi. - Ela disse, tímida.
- Como vai? Entra! - Um abraço distante e demais protocolos sociais.

[...]

- Que delícia! Como tu fez?

- Quando o alho ficar dourado, larga um pouco de hortelã junto. mas não muito antes, pra ela não queimar.

- Fica ótimo!

- Mas se pôr demais, fica enjoativo.

[...]

- Sabe... Eu nunca realmente fui feliz depois disso tudo.

- Eu sei. Eu também não.

- Foi como se eu tivesse certeza que era aquilo que eu queria, mas depois percebesse que, talvez, poderia ter sido diferente. Sabe? Na verdade, não me arrependo. Pára, não faz essa cara. Mas eu precisava disso. Pra aprender a errar, talvez. Pra aprender a ser sozinha. Acho que isso me fez crescer, por isso a experiência é válida. Tu não acha? Olha quanta coisa a gente aprendeu. Não teríamos adquirido todo esse conhecimento se isso não tivesse acontecido assim.

Como ela podia?

- De fato, Adriana, aprendemos muito. Eu aprendi muitas coisas que preferia ficar sem saber. Eu aprendi qual é o cheiro desse apartamento quanto tu não está aqui. Aprendi como me virar sozinho. Aprendi como não ter ninguém por mim e como não me importar com ninguém. Aprendi a não amar por retribuição, mas por necessidade de ficar vivo. Aprendi quantos gramas são necessários para matar alguém. Aprendi quanto tempo a gente aguenta sem comer, sem chorar, sem ter carinho.

- Não fala assim, tu sabe que...

- Sei. Eu sei muito bem, Adriana. Melhor do que tu imagina. Não fala comigo como se isso tivesse sido construtivo para nós dois. Desculpa, mas eu não tive a mesma sorte.

- Eu sei... Me desculpa por isso. Eu me sinto mal em saber, e sempre soube. A questão é justamente essa. Nós dois sabemos bem. E agora, o que se faz? Como nós usamos o que sabemos?

- Acho que não usamos, Adriana. Não um com o outro, pelo menos.

Adriana se calou e eu vi o que jamais tinha imaginado durante esse anos todos: duas lágrimas pequenas e brilhantes, duas pérolas de dor brotando em seus olhos tristes. Como eu queria pular por cima da mesa e dizer "fica fica fica fica eu quero quero sim tu sabe que eu quero e quero sim fica comigo eu quero de volta", mas não dava. Não era certo, não depois de tudo. Sim, eu havia aprendido algo durante esse tempo todo. Que quando dois caminham em direções opostas, não é tão fácil voltar pro mesmo caminho. Todas as lembranças passavam na minha cabeça, e quando segurei a mão de Adriana por cima da mesa, ela entendeu o que eu sentia e concordou em silêncio. Pegou, com o garfo, uma folha de hortelã que havia escapado do fio da faca e olhou para ela com ternura, depois olhou pra mim. Eu sabia o que ela estava pensando. lembranças de quando cozinhávamos juntos e conversávamos sobre as propriedades dos ingredientes.

Olhou-me com ternura:

- O que vai ser agora? - perguntou.

Pensei que dali em diante eu seria doce pra ela, seria seu refresco quando o amargo do mundo lhe tomasse. E que ela seria doce pra mim, mas impossível lembrar dela sem que alguma coisa doesse, como um ardido na língua.

- Hortelã e canela. - Eu disse.

- Hortelã e Canela. - Ela disse.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O mergulho da águia





A águia precipitou-se penhasco abaixo, saltando com força da rocha onde edificara seu ninho. Após os segundos atormentantes que precedem o mergulho, pode-se ver seu corpo rasgando o ar em direção ao céu, o bico forte apontado para cima.Como a fênix que renascia das cinzas, a águia deslizava em direção ao céu após o mergulho quase fatal.

Era impossível manter a ascenção daquela forma por muito tempo, mas ela sabia como proceder. Traçava linhas curvas no céu, indo e voltando, e, assim, ganhando cada vez mais altura.Elevava-se entre as nuvens, onde o ar se tornava escasso. Ascendia no horizonte longínquo daqueles que olhavam sem ver, e viviam sem entender as razões que levavam a águia a querer atingir o manto azul que cobria todas as coisas. Manto este que era alvo de sua visão perspicaz e aguçada, e que não era impossível de se alcançar, para aqueles que contassem com um par de asas fortes que batiam de forma agressiva, mesmo sendo uma violência vagarosa.

Havia determinação nos olhos e em cada rufar das asas do pássaro.Conhecia o caminho, mas os olhos abertos demonstravam sua obstinação em atingir o ponto mais alto do céu e de si mesma. Vencia cada corrente de ar de forma heróica, sem nunca deixar de subir.

Minutos depois, alcançara o ápice e gozava de vencer o desafio. Agora, planava calma perto das nuvens, o mais próximo que se podia chegar. Era um ponto quase invísivel no azul celeste. Era um ser quase invisível em meio a tantas gentes e coisas. Era o que queria: Estava em sintonia com sua essência, respirava e se mantinha no mesmo ar, estava entregue à sua natureza e se sentia o próprio céu em que se deitava.

Após nadar tranquilamente na imensidão azul sem paredes ou limitações, lançou-se a bater as asas novamente, tentando ir ainda mais alto. Impossível, àquela altura e com sua situação física. Mas tentara, e havia subido mais um par de metros. Do alto do universo e de sua consciência, fechara os olhos e lançara-se outra vez em um mergulho, mas agora sem pressa para retornar. Juntou as asas ao corpo, mas expandiu seu coração por quilômetros.Entregava-se sem medo ao abraço que não viria, e seu único objetivo era tornar-se parte do chão que a aguardava.

O silêncio imperou pelas montanhas naquele momento, como se cada criatura viva entendesse a agonia da águia e lhe prestasse seus respeitos. As pedras não rolaram, o vento não soprou e nem sequer beijou as folhas do eucalipto naquela manhã. As raposas permaneceram no ninho, e os coiotes uivaram em um tom triste, de dentro de suas tocas.O pai não soube responder quando a criança perguntou, vendo a águia lançar-se rumo ao chão, naquele mesmo longínquo horizonte outrora citado. O pai também não soube por que lhe correra uma lágrima naquela manhã tão comum.

A criança ficou sem resposta, mas havia entendido alguma coisa. Havia sentido a águia lhe fitando por um breve instante com seu olhar microscópico, tão mais potente que o da criança qua não vira, mas entendera.E ouviu as palavras da velha águia cansada ecoando entre os penhascos por tantos anos depois, naquela mesma região. Na mesma região onde ele, um dia, encontrara um ninho encravado em um rochedo, e decidira tentar ir mais alto.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Fragmentos de Adriana - Parte III

No bar, todos já comentavam sobre meus encontros com Clarice, todas as noites. Chegávamos, um sempre esperando o outro, e passávamos a noite a conversar. Com o tempo, passei a prestar cada vez mais atenção em seus olhos castanhos, seus cabelos pretos cortados acima do ombro e seu sorriso grande. Após horas, já madrugada adentro, Clarice ia embora e eu continuava bebendo até que o bar fechasse. Sendo assim, niguém estranhou quando, de repente, passamos a ir embora juntos. Nos braços de Clarice encontrei um mundo diferente, uma realidade talvez diferente daquela que eu teria imaginado em meus devaneios ébrios.
Clarice era uma criança querendo desvendar o mundo, enquanto Adriana era uma mulher que partira em busca de mais. Clarice sonhava alto, fazia pose. Bebia pouco e não compartilhava os cigarros que eu fumava enquanto ela me ouvia falar sobre Lou Reed, Nietzsche ou a fossa ilíaca de Álvarez de Azevedo. Absorvia tudo com seus imensos olhos castanhos, que pareciam querer me engolir de vez em quando.

- Só pão e leite? - Me perguntava
- Um de cada por dia - fechava os olhos e disparava o gatilho, sentindo todo meu aparelho respiratório arder - Mas frequentemente ele abdicava disso pra poder comprar livros. Vai?
- Não.

Clarice nunca ia. Nem com pó, nem com ácido, nem com erva. Ia comigo, quando depois de falar, recitar, compor sonetos em homenagem ao seus malditos olhos castanhos, partia pra cima dela como um animal durante o ataque, e ali, onde estivesse, tinha seu corpo de mulher em recém formação. Quando seu rosto de menina se encrispava em um orgasmo discreto, sentia falta de Adriana e suas unhas na minha carne, sua explosão de malícia sobre mim. E quando deitava ao meu lado, eu procurava o lado oposto, onde poderia fingir que não havia ninguém ao meu lado, que minha cama, meu sofá, meu tapete, minha cozinha, meu corredor, meu banheiro ou meu elevador continuavam tão vazios como quando Adriana foi embora.
Com o passar do tempo, cada vez mais Clarice conquistava minha intimidade, e cada vez mais via vestígios de Adriana em minha vida. Não precisou muito para ligar os pontos e, com aquela dor de quem descobre um segredo ruim, ficava cara a cara com a realidade.

Dos diários de Clarice:

Duro abrir os olhos e ver que aquilo em que depositamos nossa devoção simplesmente não corresponde à expectativa que tivemos. Eu não faço parte da vida dele. É como um parafuso que, por ser tão pequeno, não dá sustentabilidade à peça. Deus, o que eu fiz com a minha vida? Eu que queria tudo, e o que eu tinha era ao mesmo tempo tão pouco e tão necessário, de repente tenho tão muito ao mesmo tempo em que recebo tão menos daquilo que preciso.
Olho para trás e vejo o passado. Sinto, com dor, que errei. Talvez tenha sido necessário para que eu pudesse saber quem sou, o que sou. Hoje eu sei a que eu pertenço. Junto minhas mãos ao peito enquanto ele dorme ao meu lado, e faço minhas orações e choro baixinho, imaginando se meu lugar estará ainda guardado caso eu decida voltar. Penso no meu amor, e tudo que desejo é que ele não tenha feito o que este ao meu lado faz noite após noite, tentando enfiar um amor fracassado entre as pernas de alguém que não se define.
Mas sei que não posso aguentar muito mais tempo. Ocupo o lugar de um fantasma que se chama Adriana, que ele chama agora enquanto dorme. Sei que sou um fantasma também. Temo voltar. Temo não ser bem recebida. Temo não encontrar aquele amor sincero, puro e tão bonito que ele tinha por mim. E explicar o que? Dizer o que? Não se pode simplesmente voltar e fingir que nada aconteceu. Também não se pode continuar vagando a esmo quando se sabe qual é o lugar certo.


Acordei naquela manhã e Clarice havia sumido da minha vida com a mesma suavidade com a qual havia aparecido. Questão de tempo até que apareça outra, pensei. Meu café da manhã foi no único pub da cidade que permanecia aberto até aquela hora. Um café preto e vinte marlboros. Minha cabeça ainda doía da última bebedeira so som do velho Johnny Cash, e o silêncio do bar valia mais que ouro pra mim naquela hora.
"E Clarice?", vocês devem se perguntar. Não sei. Foi embora, assim como Cristina, Fabíola, Amanda e toda e qualquer outra mulher, inclusive aquelas cujo nome eu sequer lembro, que cruzaram meu destino nesses anos que se passaram desde que Adriana foi embora. Talvez cada uma delas merecesse uma história, ou uma canção. Nunca toquei ou escrevi para nenhuma delas. Vivi-as intensamente, e fiz de cada uma delas um pequeno pedaço da minha destruição.