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Parte I
Parte II
Parte III
Parte IV (Hortelã & Canela)
Uma tentativa precocemente frustrada de reativar o finado "Entre dois Cafés". Quinquilharias literárias, traquitanas escritas e republicações, na íntegra, editadas ou "revisited", de antigos e dispersos escritos.
sábado, 26 de março de 2011
Fragmentos de Adriana - Parte IV (Hortelã & Canela)
A lâmina afiada da faca reluzia à luz daquele sol matinal de um domingo de outono que entrava pela janela da cozinha e formava desenhos na parede do outro lado enquanto eu cortava pedaços de carne e deixava-os ao lado. O aroma do alho impregnava o ambiente, mesclado com café e carne fresca. Ingredientes organizadamente separados e espalhados pela mesa, enquanto eu manipulava carnes e legumes para o almoço.
O tempo corre sem percebermos. Alguns anos vazios passaram-se sem Adriana. Sem quem? Não sei. Já tinha esquecido. Tinha esquecido dela e de mim naquele período confuso, talvez convulso, em que me entreguei de olhos fechados ao sabor das vontades do destino, sem me preocupar muito com as consequências das minhas atitudes.
Durante esse tempo, meu amor por Adriana foi doentio como nunca, me matava lentamente e de forma dolorosa. Eu tratava Adriana como um tumor maligno, e tínhamos uma espécie de acordo mórbido e silencioso: Se ela me mantivesse vivo, eu lhe manteria amada. Me matasse e passaria o resto de seus dias sem a lembrança de ter alguém desejando-lhe. Triste constatação, mas um contrato de tal dimensões realmente foi necessário.
Tirei as folhas de alguns ramos de hortelã e as cortei em pequenos pedaços. Quando joguei na panela, entre os pedaços de carne e o alho já dourado, o aroma fresco e adocicado da erva invadiu o ambiente, criando uma atmosfera agradável e aconchegante.
Adriana, como eu soube depois, tivera um caminho diferente depois de ter me mandado embora. Fez as viagens que tanto queria, conheceu uma boa parte do mundo (" - Pa - tchou - ly. É da Indonésia"), enquanto eu traçava o caminho apartamento-bar-apartamento. Conheceu pessoas, talvez umas mais que outras (" - Moramos um tempo juntos, mas era mais a minha necessidade de não ficar sozinha. Eu precisava de abrigo, e ele estava lá. Só isso"). Eu? Bem... Conheci todas as mulheres possíveis e nenhuma ao mesmo tempo.
Lembro que naquela manhã a televisão me contou que Adolfo Casares havia morrido. Casares nunca quis morrer. Ele sempre teve medo da morte e não escondia isso. Fiquei triste com aquela notícia. Daí o telefone tocou. Cassares partia e Adriana voltava. Cômico, não? Não. Sem muitas explicações, marcamos um almoço. E cá estou preparando-o, entre hortelãs e alho dourado.
A campainha tocou, abri a porta. Nossa... Ela continuava linda, embora agora parecesse mais segura. As linhas que o tempo marcara em seu rosto lhe davam mais polidez e credibilidade. Os cabelos continuavam pretos como sempre, mesmo que fossem pintados. Andava bem vestida, tinha um perfume suave. Era Adriana, mesmo que não fosse, mesmo depois de alguns anos e muitos rancores, parecia tão familiar como se tivesse apenas levantado para buscar algo na cozinha, e agora voltava mais velha e mais linda do que nunca.
- Oi. - Ela disse, tímida.
- Como vai? Entra! - Um abraço distante e demais protocolos sociais.
[...]
- Que delícia! Como tu fez?
- Quando o alho ficar dourado, larga um pouco de hortelã junto. mas não muito antes, pra ela não queimar.
- Fica ótimo!
- Mas se pôr demais, fica enjoativo.
[...]
- Sabe... Eu nunca realmente fui feliz depois disso tudo.
- Eu sei. Eu também não.
- Foi como se eu tivesse certeza que era aquilo que eu queria, mas depois percebesse que, talvez, poderia ter sido diferente. Sabe? Na verdade, não me arrependo. Pára, não faz essa cara. Mas eu precisava disso. Pra aprender a errar, talvez. Pra aprender a ser sozinha. Acho que isso me fez crescer, por isso a experiência é válida. Tu não acha? Olha quanta coisa a gente aprendeu. Não teríamos adquirido todo esse conhecimento se isso não tivesse acontecido assim.
Como ela podia?
- De fato, Adriana, aprendemos muito. Eu aprendi muitas coisas que preferia ficar sem saber. Eu aprendi qual é o cheiro desse apartamento quanto tu não está aqui. Aprendi como me virar sozinho. Aprendi como não ter ninguém por mim e como não me importar com ninguém. Aprendi a não amar por retribuição, mas por necessidade de ficar vivo. Aprendi quantos gramas são necessários para matar alguém. Aprendi quanto tempo a gente aguenta sem comer, sem chorar, sem ter carinho.
- Não fala assim, tu sabe que...
- Sei. Eu sei muito bem, Adriana. Melhor do que tu imagina. Não fala comigo como se isso tivesse sido construtivo para nós dois. Desculpa, mas eu não tive a mesma sorte.
- Eu sei... Me desculpa por isso. Eu me sinto mal em saber, e sempre soube. A questão é justamente essa. Nós dois sabemos bem. E agora, o que se faz? Como nós usamos o que sabemos?
- Acho que não usamos, Adriana. Não um com o outro, pelo menos.
Adriana se calou e eu vi o que jamais tinha imaginado durante esse anos todos: duas lágrimas pequenas e brilhantes, duas pérolas de dor brotando em seus olhos tristes. Como eu queria pular por cima da mesa e dizer "fica fica fica fica eu quero quero sim tu sabe que eu quero e quero sim fica comigo eu quero de volta", mas não dava. Não era certo, não depois de tudo. Sim, eu havia aprendido algo durante esse tempo todo. Que quando dois caminham em direções opostas, não é tão fácil voltar pro mesmo caminho. Todas as lembranças passavam na minha cabeça, e quando segurei a mão de Adriana por cima da mesa, ela entendeu o que eu sentia e concordou em silêncio. Pegou, com o garfo, uma folha de hortelã que havia escapado do fio da faca e olhou para ela com ternura, depois olhou pra mim. Eu sabia o que ela estava pensando. lembranças de quando cozinhávamos juntos e conversávamos sobre as propriedades dos ingredientes.
Olhou-me com ternura:
- O que vai ser agora? - perguntou.
Pensei que dali em diante eu seria doce pra ela, seria seu refresco quando o amargo do mundo lhe tomasse. E que ela seria doce pra mim, mas impossível lembrar dela sem que alguma coisa doesse, como um ardido na língua.
- Hortelã e canela. - Eu disse.
- Hortelã e Canela. - Ela disse.
O tempo corre sem percebermos. Alguns anos vazios passaram-se sem Adriana. Sem quem? Não sei. Já tinha esquecido. Tinha esquecido dela e de mim naquele período confuso, talvez convulso, em que me entreguei de olhos fechados ao sabor das vontades do destino, sem me preocupar muito com as consequências das minhas atitudes.
Durante esse tempo, meu amor por Adriana foi doentio como nunca, me matava lentamente e de forma dolorosa. Eu tratava Adriana como um tumor maligno, e tínhamos uma espécie de acordo mórbido e silencioso: Se ela me mantivesse vivo, eu lhe manteria amada. Me matasse e passaria o resto de seus dias sem a lembrança de ter alguém desejando-lhe. Triste constatação, mas um contrato de tal dimensões realmente foi necessário.
Tirei as folhas de alguns ramos de hortelã e as cortei em pequenos pedaços. Quando joguei na panela, entre os pedaços de carne e o alho já dourado, o aroma fresco e adocicado da erva invadiu o ambiente, criando uma atmosfera agradável e aconchegante.
Adriana, como eu soube depois, tivera um caminho diferente depois de ter me mandado embora. Fez as viagens que tanto queria, conheceu uma boa parte do mundo (" - Pa - tchou - ly. É da Indonésia"), enquanto eu traçava o caminho apartamento-bar-apartamento. Conheceu pessoas, talvez umas mais que outras (" - Moramos um tempo juntos, mas era mais a minha necessidade de não ficar sozinha. Eu precisava de abrigo, e ele estava lá. Só isso"). Eu? Bem... Conheci todas as mulheres possíveis e nenhuma ao mesmo tempo.
Lembro que naquela manhã a televisão me contou que Adolfo Casares havia morrido. Casares nunca quis morrer. Ele sempre teve medo da morte e não escondia isso. Fiquei triste com aquela notícia. Daí o telefone tocou. Cassares partia e Adriana voltava. Cômico, não? Não. Sem muitas explicações, marcamos um almoço. E cá estou preparando-o, entre hortelãs e alho dourado.
A campainha tocou, abri a porta. Nossa... Ela continuava linda, embora agora parecesse mais segura. As linhas que o tempo marcara em seu rosto lhe davam mais polidez e credibilidade. Os cabelos continuavam pretos como sempre, mesmo que fossem pintados. Andava bem vestida, tinha um perfume suave. Era Adriana, mesmo que não fosse, mesmo depois de alguns anos e muitos rancores, parecia tão familiar como se tivesse apenas levantado para buscar algo na cozinha, e agora voltava mais velha e mais linda do que nunca.
- Oi. - Ela disse, tímida.
- Como vai? Entra! - Um abraço distante e demais protocolos sociais.
[...]
- Que delícia! Como tu fez?
- Quando o alho ficar dourado, larga um pouco de hortelã junto. mas não muito antes, pra ela não queimar.
- Fica ótimo!
- Mas se pôr demais, fica enjoativo.
[...]
- Sabe... Eu nunca realmente fui feliz depois disso tudo.
- Eu sei. Eu também não.
- Foi como se eu tivesse certeza que era aquilo que eu queria, mas depois percebesse que, talvez, poderia ter sido diferente. Sabe? Na verdade, não me arrependo. Pára, não faz essa cara. Mas eu precisava disso. Pra aprender a errar, talvez. Pra aprender a ser sozinha. Acho que isso me fez crescer, por isso a experiência é válida. Tu não acha? Olha quanta coisa a gente aprendeu. Não teríamos adquirido todo esse conhecimento se isso não tivesse acontecido assim.
Como ela podia?
- De fato, Adriana, aprendemos muito. Eu aprendi muitas coisas que preferia ficar sem saber. Eu aprendi qual é o cheiro desse apartamento quanto tu não está aqui. Aprendi como me virar sozinho. Aprendi como não ter ninguém por mim e como não me importar com ninguém. Aprendi a não amar por retribuição, mas por necessidade de ficar vivo. Aprendi quantos gramas são necessários para matar alguém. Aprendi quanto tempo a gente aguenta sem comer, sem chorar, sem ter carinho.
- Não fala assim, tu sabe que...
- Sei. Eu sei muito bem, Adriana. Melhor do que tu imagina. Não fala comigo como se isso tivesse sido construtivo para nós dois. Desculpa, mas eu não tive a mesma sorte.
- Eu sei... Me desculpa por isso. Eu me sinto mal em saber, e sempre soube. A questão é justamente essa. Nós dois sabemos bem. E agora, o que se faz? Como nós usamos o que sabemos?
- Acho que não usamos, Adriana. Não um com o outro, pelo menos.
Adriana se calou e eu vi o que jamais tinha imaginado durante esse anos todos: duas lágrimas pequenas e brilhantes, duas pérolas de dor brotando em seus olhos tristes. Como eu queria pular por cima da mesa e dizer "fica fica fica fica eu quero quero sim tu sabe que eu quero e quero sim fica comigo eu quero de volta", mas não dava. Não era certo, não depois de tudo. Sim, eu havia aprendido algo durante esse tempo todo. Que quando dois caminham em direções opostas, não é tão fácil voltar pro mesmo caminho. Todas as lembranças passavam na minha cabeça, e quando segurei a mão de Adriana por cima da mesa, ela entendeu o que eu sentia e concordou em silêncio. Pegou, com o garfo, uma folha de hortelã que havia escapado do fio da faca e olhou para ela com ternura, depois olhou pra mim. Eu sabia o que ela estava pensando. lembranças de quando cozinhávamos juntos e conversávamos sobre as propriedades dos ingredientes.
Olhou-me com ternura:
- O que vai ser agora? - perguntou.
Pensei que dali em diante eu seria doce pra ela, seria seu refresco quando o amargo do mundo lhe tomasse. E que ela seria doce pra mim, mas impossível lembrar dela sem que alguma coisa doesse, como um ardido na língua.
- Hortelã e canela. - Eu disse.
- Hortelã e Canela. - Ela disse.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
O mergulho da águia

A águia precipitou-se penhasco abaixo, saltando com força da rocha onde edificara seu ninho. Após os segundos atormentantes que precedem o mergulho, pode-se ver seu corpo rasgando o ar em direção ao céu, o bico forte apontado para cima.Como a fênix que renascia das cinzas, a águia deslizava em direção ao céu após o mergulho quase fatal.
Era impossível manter a ascenção daquela forma por muito tempo, mas ela sabia como proceder. Traçava linhas curvas no céu, indo e voltando, e, assim, ganhando cada vez mais altura.Elevava-se entre as nuvens, onde o ar se tornava escasso. Ascendia no horizonte longínquo daqueles que olhavam sem ver, e viviam sem entender as razões que levavam a águia a querer atingir o manto azul que cobria todas as coisas. Manto este que era alvo de sua visão perspicaz e aguçada, e que não era impossível de se alcançar, para aqueles que contassem com um par de asas fortes que batiam de forma agressiva, mesmo sendo uma violência vagarosa.
Havia determinação nos olhos e em cada rufar das asas do pássaro.Conhecia o caminho, mas os olhos abertos demonstravam sua obstinação em atingir o ponto mais alto do céu e de si mesma. Vencia cada corrente de ar de forma heróica, sem nunca deixar de subir.
Minutos depois, alcançara o ápice e gozava de vencer o desafio. Agora, planava calma perto das nuvens, o mais próximo que se podia chegar. Era um ponto quase invísivel no azul celeste. Era um ser quase invisível em meio a tantas gentes e coisas. Era o que queria: Estava em sintonia com sua essência, respirava e se mantinha no mesmo ar, estava entregue à sua natureza e se sentia o próprio céu em que se deitava.
Após nadar tranquilamente na imensidão azul sem paredes ou limitações, lançou-se a bater as asas novamente, tentando ir ainda mais alto. Impossível, àquela altura e com sua situação física. Mas tentara, e havia subido mais um par de metros. Do alto do universo e de sua consciência, fechara os olhos e lançara-se outra vez em um mergulho, mas agora sem pressa para retornar. Juntou as asas ao corpo, mas expandiu seu coração por quilômetros.Entregava-se sem medo ao abraço que não viria, e seu único objetivo era tornar-se parte do chão que a aguardava.
O silêncio imperou pelas montanhas naquele momento, como se cada criatura viva entendesse a agonia da águia e lhe prestasse seus respeitos. As pedras não rolaram, o vento não soprou e nem sequer beijou as folhas do eucalipto naquela manhã. As raposas permaneceram no ninho, e os coiotes uivaram em um tom triste, de dentro de suas tocas.O pai não soube responder quando a criança perguntou, vendo a águia lançar-se rumo ao chão, naquele mesmo longínquo horizonte outrora citado. O pai também não soube por que lhe correra uma lágrima naquela manhã tão comum.
A criança ficou sem resposta, mas havia entendido alguma coisa. Havia sentido a águia lhe fitando por um breve instante com seu olhar microscópico, tão mais potente que o da criança qua não vira, mas entendera.E ouviu as palavras da velha águia cansada ecoando entre os penhascos por tantos anos depois, naquela mesma região. Na mesma região onde ele, um dia, encontrara um ninho encravado em um rochedo, e decidira tentar ir mais alto.
Era impossível manter a ascenção daquela forma por muito tempo, mas ela sabia como proceder. Traçava linhas curvas no céu, indo e voltando, e, assim, ganhando cada vez mais altura.Elevava-se entre as nuvens, onde o ar se tornava escasso. Ascendia no horizonte longínquo daqueles que olhavam sem ver, e viviam sem entender as razões que levavam a águia a querer atingir o manto azul que cobria todas as coisas. Manto este que era alvo de sua visão perspicaz e aguçada, e que não era impossível de se alcançar, para aqueles que contassem com um par de asas fortes que batiam de forma agressiva, mesmo sendo uma violência vagarosa.
Havia determinação nos olhos e em cada rufar das asas do pássaro.Conhecia o caminho, mas os olhos abertos demonstravam sua obstinação em atingir o ponto mais alto do céu e de si mesma. Vencia cada corrente de ar de forma heróica, sem nunca deixar de subir.
Minutos depois, alcançara o ápice e gozava de vencer o desafio. Agora, planava calma perto das nuvens, o mais próximo que se podia chegar. Era um ponto quase invísivel no azul celeste. Era um ser quase invisível em meio a tantas gentes e coisas. Era o que queria: Estava em sintonia com sua essência, respirava e se mantinha no mesmo ar, estava entregue à sua natureza e se sentia o próprio céu em que se deitava.
Após nadar tranquilamente na imensidão azul sem paredes ou limitações, lançou-se a bater as asas novamente, tentando ir ainda mais alto. Impossível, àquela altura e com sua situação física. Mas tentara, e havia subido mais um par de metros. Do alto do universo e de sua consciência, fechara os olhos e lançara-se outra vez em um mergulho, mas agora sem pressa para retornar. Juntou as asas ao corpo, mas expandiu seu coração por quilômetros.Entregava-se sem medo ao abraço que não viria, e seu único objetivo era tornar-se parte do chão que a aguardava.
O silêncio imperou pelas montanhas naquele momento, como se cada criatura viva entendesse a agonia da águia e lhe prestasse seus respeitos. As pedras não rolaram, o vento não soprou e nem sequer beijou as folhas do eucalipto naquela manhã. As raposas permaneceram no ninho, e os coiotes uivaram em um tom triste, de dentro de suas tocas.O pai não soube responder quando a criança perguntou, vendo a águia lançar-se rumo ao chão, naquele mesmo longínquo horizonte outrora citado. O pai também não soube por que lhe correra uma lágrima naquela manhã tão comum.
A criança ficou sem resposta, mas havia entendido alguma coisa. Havia sentido a águia lhe fitando por um breve instante com seu olhar microscópico, tão mais potente que o da criança qua não vira, mas entendera.E ouviu as palavras da velha águia cansada ecoando entre os penhascos por tantos anos depois, naquela mesma região. Na mesma região onde ele, um dia, encontrara um ninho encravado em um rochedo, e decidira tentar ir mais alto.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Fragmentos de Adriana - Parte III
No bar, todos já comentavam sobre meus encontros com Clarice, todas as noites. Chegávamos, um sempre esperando o outro, e passávamos a noite a conversar. Com o tempo, passei a prestar cada vez mais atenção em seus olhos castanhos, seus cabelos pretos cortados acima do ombro e seu sorriso grande. Após horas, já madrugada adentro, Clarice ia embora e eu continuava bebendo até que o bar fechasse. Sendo assim, niguém estranhou quando, de repente, passamos a ir embora juntos. Nos braços de Clarice encontrei um mundo diferente, uma realidade talvez diferente daquela que eu teria imaginado em meus devaneios ébrios.
Clarice era uma criança querendo desvendar o mundo, enquanto Adriana era uma mulher que partira em busca de mais. Clarice sonhava alto, fazia pose. Bebia pouco e não compartilhava os cigarros que eu fumava enquanto ela me ouvia falar sobre Lou Reed, Nietzsche ou a fossa ilíaca de Álvarez de Azevedo. Absorvia tudo com seus imensos olhos castanhos, que pareciam querer me engolir de vez em quando.
- Só pão e leite? - Me perguntava
- Um de cada por dia - fechava os olhos e disparava o gatilho, sentindo todo meu aparelho respiratório arder - Mas frequentemente ele abdicava disso pra poder comprar livros. Vai?
- Não.
Clarice nunca ia. Nem com pó, nem com ácido, nem com erva. Ia comigo, quando depois de falar, recitar, compor sonetos em homenagem ao seus malditos olhos castanhos, partia pra cima dela como um animal durante o ataque, e ali, onde estivesse, tinha seu corpo de mulher em recém formação. Quando seu rosto de menina se encrispava em um orgasmo discreto, sentia falta de Adriana e suas unhas na minha carne, sua explosão de malícia sobre mim. E quando deitava ao meu lado, eu procurava o lado oposto, onde poderia fingir que não havia ninguém ao meu lado, que minha cama, meu sofá, meu tapete, minha cozinha, meu corredor, meu banheiro ou meu elevador continuavam tão vazios como quando Adriana foi embora.
Com o passar do tempo, cada vez mais Clarice conquistava minha intimidade, e cada vez mais via vestígios de Adriana em minha vida. Não precisou muito para ligar os pontos e, com aquela dor de quem descobre um segredo ruim, ficava cara a cara com a realidade.
Dos diários de Clarice:Duro abrir os olhos e ver que aquilo em que depositamos nossa devoção simplesmente não corresponde à expectativa que tivemos. Eu não faço parte da vida dele. É como um parafuso que, por ser tão pequeno, não dá sustentabilidade à peça. Deus, o que eu fiz com a minha vida? Eu que queria tudo, e o que eu tinha era ao mesmo tempo tão pouco e tão necessário, de repente tenho tão muito ao mesmo tempo em que recebo tão menos daquilo que preciso.Olho para trás e vejo o passado. Sinto, com dor, que errei. Talvez tenha sido necessário para que eu pudesse saber quem sou, o que sou. Hoje eu sei a que eu pertenço. Junto minhas mãos ao peito enquanto ele dorme ao meu lado, e faço minhas orações e choro baixinho, imaginando se meu lugar estará ainda guardado caso eu decida voltar. Penso no meu amor, e tudo que desejo é que ele não tenha feito o que este ao meu lado faz noite após noite, tentando enfiar um amor fracassado entre as pernas de alguém que não se define.Mas sei que não posso aguentar muito mais tempo. Ocupo o lugar de um fantasma que se chama Adriana, que ele chama agora enquanto dorme. Sei que sou um fantasma também. Temo voltar. Temo não ser bem recebida. Temo não encontrar aquele amor sincero, puro e tão bonito que ele tinha por mim. E explicar o que? Dizer o que? Não se pode simplesmente voltar e fingir que nada aconteceu. Também não se pode continuar vagando a esmo quando se sabe qual é o lugar certo.
Acordei naquela manhã e Clarice havia sumido da minha vida com a mesma suavidade com a qual havia aparecido. Questão de tempo até que apareça outra, pensei. Meu café da manhã foi no único pub da cidade que permanecia aberto até aquela hora. Um café preto e vinte marlboros. Minha cabeça ainda doía da última bebedeira so som do velho Johnny Cash, e o silêncio do bar valia mais que ouro pra mim naquela hora.
"E Clarice?", vocês devem se perguntar. Não sei. Foi embora, assim como Cristina, Fabíola, Amanda e toda e qualquer outra mulher, inclusive aquelas cujo nome eu sequer lembro, que cruzaram meu destino nesses anos que se passaram desde que Adriana foi embora. Talvez cada uma delas merecesse uma história, ou uma canção. Nunca toquei ou escrevi para nenhuma delas. Vivi-as intensamente, e fiz de cada uma delas um pequeno pedaço da minha destruição.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Fragmentos de Adriana - Parte II
(para ler ao som de "A Quick One While He's Away" - The Who)
2.1 - Queda
Muitos poderiam afirmar que minha vida mudou no momento em que Adriana partiu em busca de algo maior que eu, maior que ela própria. Não acredito nisso. Embora nem eu mesmo possa dizer com certeza, acho mais provável que os dias seguintes tenham sido um período de transmutação. Eu fui de tudo e fui tão pouco... Longe do tempo e da razão, eu buscava algo em que acreditar por algumas horas, ao menos. Mas no que podemos acreditar, na cidade?
No santuário de concreto e metal, gargantas secas engoliam a fuligem que caía como neve das nuvens negras de fumaça. Longe do mar, esperanças eram ancoradas no fundo daquele oceano de asfalto.
É estranho, eu sei, mas consequências já não me importavam mais. Mergulhei na destruição e na irresponsabilidade logo na primeira semana. Dos vícios, não poupei nenhum. Não escolhi os menos perigosos. Noite após noite, os bares eram meu reduto, onde eu me encontrava no meio de gente que não me conhecia, nem fazia questão. Entretanto, todos sabiam. Era eu passar e perceber algo estranho nos rostos, uma ponta de pena, talvez deboche.
Adriana me deixara um legado. A sina de ser desprezado como um cão por pessoas de qualquer tipo. Esqueci o nome de Adriana alguns dias depois. Mudei minha casa, mudei minhas roupas, mudei minha vida. Antes de dormir, me sentia apagado. Chorava sem lembrar de quem.
2.2 - Remédio Amargo
Pedi a quarta dose de uísque com descaso (com já havia feito tantas vezes antes). O bar era um ambiente obscuro. Vermelho e marrom predominavam naquele cômodo enfumaçado. Seis ou sete mesinhas redondas com cinco lugares estavam distribuídas ao longo da parede coberta por quinquilharias de bandas e pôsteres vintage. Escolhi o lugar mais afastado para sentar, onde podia ver os olhos tristes de uma pin up pregada na parede. Vestia um corpete vermelho com meias compridas pretas. Tinha um cigarro na mão e algo que me chamou a atenção: Seu olhar era triste. De todas as pin ups espalhadas pelo bar, aquela era a única que não tinha um rosto sensual. Apoiando o o queixo no joelho direito, havia tristeza em seus olhos. Simpatizei com ela. Chamei-a carinhosamente de Joana.
Era madrugada, e a garotada alternativa infestava o bar. Menininhas gostosas com cabelo esquisito, rapazes mal saídos das fraldas fazendo pose de intelectual. Ah, aquela juventude da minha idade era tão diferente de mim. Eram cerejas, ainda. Eu já era azeitona, apesar de não ser mais que um par de anos mais velho. Enquanto todos apreciavam a arte, a música, a cultura do momento, eu me chapava e desejava que o mundo explodisse.
Já alterado pela bebida, levantei e caminhei, esbarrando no máximo de gente possível, em direção à jukebox. Trocados catados, música escolhida, voltei pro meu lugar e afundei os cotovelos na mesa. Joana continuava me olhando. Mas ao som dos primeiros acordes de Stand By Me, seus olhos já não eram os únicos que me buscavam.
Era madrugada, e a garotada alternativa infestava o bar. Menininhas gostosas com cabelo esquisito, rapazes mal saídos das fraldas fazendo pose de intelectual. Ah, aquela juventude da minha idade era tão diferente de mim. Eram cerejas, ainda. Eu já era azeitona, apesar de não ser mais que um par de anos mais velho. Enquanto todos apreciavam a arte, a música, a cultura do momento, eu me chapava e desejava que o mundo explodisse.
Já alterado pela bebida, levantei e caminhei, esbarrando no máximo de gente possível, em direção à jukebox. Trocados catados, música escolhida, voltei pro meu lugar e afundei os cotovelos na mesa. Joana continuava me olhando. Mas ao som dos primeiros acordes de Stand By Me, seus olhos já não eram os únicos que me buscavam.
"I won't cry! No, I won't
No, I won't share up a tear
just as long as you stand,
Stand by me
So darling, darling
Stand by me
Stand by me
Stand by me
Stand by me
Stand by me"
A menina em pé ao meu lado entoava a canção com sua voz de algodão e hálito de uísque e martini. Na mão, um manhattan com cereja.
- Adoro essa música. - Devia ter uns dezoito anos, dezenove no máximo.
- Música de velho, garota. - Ela riu. Sentou à minha frente sem que eu a convidasse. No instante em que curvou o corpo para sentar, avaliei aquela ninfeta na minha frente. Bundinha legal, peitinho bacana.
- Música boa não tem idade. Meu nome é Clarice. - Não pertencia àquele lugar. Era uma criança, ainda. Entrei no jogo pra ver onde dava.
- Marcos.
Drinques mais tarde, Clarice me contara um pouco a seu respeito. Viera do interior há pouco tempo, sentia-se oprimida pela mentalidade de cidade pequena. Pra trás, deixara uma vida sobre a qual não falava.
- Família?
- Não tenho.
- Namorado, marido?
- Vou buscar mais um manhattan, já volto.
Quando voltou, mudou de assunto. Perguntou de mim, falei sobre minha vida, que estava mudando algumas coisas. Perguntou de mulheres, desconversei. Era o jogo dela, poderia ser o meu também.
E na doçura da criança que partira em busca de algo maior, depositei tudo aquilo que havia sobrado de Adriana. Adriana queria mais. Para Clarice, eu era esse mais.
- Adoro essa música. - Devia ter uns dezoito anos, dezenove no máximo.
- Música de velho, garota. - Ela riu. Sentou à minha frente sem que eu a convidasse. No instante em que curvou o corpo para sentar, avaliei aquela ninfeta na minha frente. Bundinha legal, peitinho bacana.
- Música boa não tem idade. Meu nome é Clarice. - Não pertencia àquele lugar. Era uma criança, ainda. Entrei no jogo pra ver onde dava.
- Marcos.
Drinques mais tarde, Clarice me contara um pouco a seu respeito. Viera do interior há pouco tempo, sentia-se oprimida pela mentalidade de cidade pequena. Pra trás, deixara uma vida sobre a qual não falava.
- Família?
- Não tenho.
- Namorado, marido?
- Vou buscar mais um manhattan, já volto.
Quando voltou, mudou de assunto. Perguntou de mim, falei sobre minha vida, que estava mudando algumas coisas. Perguntou de mulheres, desconversei. Era o jogo dela, poderia ser o meu também.
E na doçura da criança que partira em busca de algo maior, depositei tudo aquilo que havia sobrado de Adriana. Adriana queria mais. Para Clarice, eu era esse mais.
[CONTINUA]
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Fragmentos de Adriana - Parte I
Se Adriana não me amava, como eu acreditava enquanto ela me mandava embora de seu apartamento, soube fingir muito bem toda vez que seus olhos buscaram os meus e um sorriso se formara em seus lábios, os quais beijavam-me em acalento.
Tentava me fazer perceber algo que eu não conseguia enxergar, me dizia que faltava algo cuja ausência eu jamais sentira.
Enquanto ela falava e tentava diminuir o impacto, eu ia caindo e girando e caindo e girando naquele túnel que parecia não chegar ao fim e naquele estado catatônico, minhas pálpebras cerradas eram a tela onde eram reprisados os momentos ao lado daquela que agora me dizia que precisava de algo maior.
Eu caio.
De repente, caio. Despenco do meu autocontrole e já não tenho mais chão sob mim, ou oxigênio ao meu redor. Entre as figuras que formam o retrato da cidade em ebulição está um recorte que não encontra aconchego entre os espaços abertos na carne da moldura. Eu não me encaixava, eu não tinha espaço. Daquele momento em diante, eu era sobra. Talvez rolasse por aí até encontrar descanso em alguma caixa de recortes. Adriana me fez vítima de sua ânsia por liberdade quando quis voar mais alto, e me deixou sozinho com uma máquina de escrever e uma sensação de desamparo pulsando dentro do peito.
Ao sair do apartamento, me abraçou mais uma vez e me pediu desculpas. Não respondi, estava ocupado demais destruindo os planos que havia feito e que agora eram desnecessários. Caminhei até o fim do corredor com uma espécie de leveza, como se flutuasse sobre o carpete encardido que cobria o chão de concreto. Deslizei pelas escadas, eu não estava lá.
No caminho para casa, instintivamente entrei no bar o qual frequentava religiosamente há dois anos. Meus cotovelos buscaram instintivamente o balcão manchado e com cheiro de cerveja. Fui atendido em seguida.
- E então, o que vai ser hoje?
Por um instante eu quis saber a resposta, quis ter a certeza de que ainda haveria alguma coisa hoje, e talvez até existisse um amanhã, depois que eu dormisse e acordasse. Mas acreditar em que? Esperar o que, se nada mais era o que tinha sido, se num de repente tudo havia deixado de ser?
Hoje? Não sei, meu amigo. Não to pra responder. A gente decide isso outra hora.
Fragmentos de Adriana - Parte II
Fragmentos de Adriana - Parte II
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
Azeitonas & Cerejas
"Ganesha Sharanam Sharanam Ganesha
Gan Gan Ganapati Sharanam Ganesha
Jay Ganesha Jaya Jaya Gananatha
Ganesha Sharanam Sharanam Ganesha
Gan Gan Ganapatiye Namaha
Ganesha Sharanam Sharanam Ganesha"
- Entende? - ela me perguntou, e tirou do copo de gim com tônica o palito com a azeitona espetada, e ergueu à altura dos olhos - Isso não é uma cereja. É a nêmesis perfeita da cereja. Cereja é doce. Cereja é vermelha, é bonitinha e todo mundo gosta. Adoça a boca, adoça a vida e é macia de morder. E eu não sou uma cereja, não levo jeito pra ser. Azeitona, baby. Amarga, azeda. Um tom de verde mofado, caroço duro de roer. Porque eu amargurei, boy. A vida me azedou. Não como vinho, mas sim como vinagre. Eu sou azeda e caroçuda. Calejada, garoto. Cerejas não existem no mundo real. Elas apodrecem em contato com o oxigênio putrefato que a cidade exala. Uma vez eu era uma cereja. Eu já usei vestidinho comprido e meu quarto era branco e rosa. Tá rindo do que, palhaço? - E bebeu o gim em um gole só - Eu já fui doce. Eu já deixei açúcar na boca que me beijou, eu já tive esperança, já tive sonho. Eu já fui vermelhinha e macia de morder, querido. Mas me diz, garoto, qual é a cereja que sobrevive a todo esse lixo, gás carbônico, gonorréia, álcool e hipocrisia que tem na rua? Darwin explicou tudo, mas esqueceu das cerejas. Vai ver ele não sabia. Porque agora eu sou uma azeitona. E sabe por que? Eu segui o que Darwin disse. Eu me adaptei. A cidade fez isso comigo, garoto. A cidade me corrompeu, tirou de mim tudo que era doce, tirou minha maciez. Agora eu cheiro a cerveja morna e cigarro. A conhaque, gim e uísque vagabundo. E por que, garoto? Por que isso aconteceu comigo? De repente a gente abre os olhos e mudou, endureceu, azedou... E nunca mais volta a ser doce. Eu sonho toda noite com tudo que eu era. Olha minhas tatuagens: Cereja e azeitona. Todo mundo sonha em ser cereja, né? Tu é uma cereja, criança. Olha pra ti... Pele branquinha, lisinha, cabelo cortado. Nunca fumou maconha, né? Nem cigarro, nem mentolado. Só cerveja e uísque importado. Cereja vermelhinha, e eu to louca pra te morder, pra sentir teu doce em mim. Não ri, garoto, ou tu acha que eu não sei que tu só sentou do meu lado porque a noite tá acabando e tu quer comer uma vagabunda? Eu dou pra ti, não te preocupa. Eu dou e não vou ficar te pentelhando, não quero teu telefone, não quero nem saber teu nome. Eu transo bem, carinha. Não precisa nem me levar pra casa depois. Eu gosto mais de cerejas, mas sabe por que eu só bebo gim com azeitona? Eu gosto de fazer a azeitona se sentir amada, desejada. A azeitona se sente importante por estar dando prazer a alguém. Deixa eu ser tua azeitona, boy. Deixa eu ser tua azeitona e fingir que sou tua cereja.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Apartamento 492

Chorei ao mesmo tempo em que começou a chover. Éramos, eu e ela, a chuva, uma entidade só. Éramos uma manifestação da dor que nos tomava naquele momento, e compartilhávamos nosso segredo numa solidão a dois, longe de tudo mais que chovia, chorava e morria naquela cidade que outrora pulsava viva em órgãos de concreto e corria como sangue por entre as veias de asfalto, mas que agora calava-se, como morta, em respeito a mim e à chuva.
Andei por todas as ruas da cidade, acompanhado dela, deixando minha alma em cada esquina que dobrava. Cruzei com a saudade, cruzei com a morte, cruzei com a loucura e com o desespero do embrião urbano. Em pouco tempo, já encharcado pela chuva incessante, cheguei ao n° 3584. Subi até o quarto andar e deixei-me cair ao chõ em frente ao 492, sem ter coragem de bater àquela porta que já havia sido meu refúgio tantas vezes, mas que agora estava permanentemente trancada. Pelo lado de dentro.
Minha visita não se estendeu por muito longe, pois logo ouvi vozes na escada. Uma feminina, conhecida, outra masculina. Desci pelo lado oposto e arremessei meu guarda-chuva ao alto assim que ganhei a rua. Caminhei por mais de uma hora sem destino certo, sem idéia nenhuma. O vento frio atravessava meu casaco molhado e doía como se agulhas estivessem sendo cravadas na minha carne. Meus pés estavam gelados, minha cabeça latejava.
parei sob uma luminária na esquina e tirei meu cigarros do bolso interno da jaqueta. Inútil, a chuva e o vento sequer permitiam que eu acendesse meu maldito cigarro. Sem mais forças, sentei à calçada e chorei. Solucei. Esmurrei o asfalto com o punho cerrado, e vi meu sangue se misturar à poça d'água que se formara aos meus pés. Afastando o cabelo do rosto, mirei aquele jovem que me encarava. Olhei em seus olhos o mais fundo que pude. Levantei e joguei o maço de cigarros no lixo. Achei o caminho de casa, tomei um banho quente e dormi por dois dias ininterruptos. Nunca mais voltei ao 492 do número 3584. Nunca mais fumei. Nunca mais me perdi na chuva. Nunca mais esmurrei o asfalto. Nunca mais vi aqueles olhos verdes refletidos na água.
Mas até hoje, toda vez que fecho os olhos, posso ouvir um par de vozes subindo a escada.
Andei por todas as ruas da cidade, acompanhado dela, deixando minha alma em cada esquina que dobrava. Cruzei com a saudade, cruzei com a morte, cruzei com a loucura e com o desespero do embrião urbano. Em pouco tempo, já encharcado pela chuva incessante, cheguei ao n° 3584. Subi até o quarto andar e deixei-me cair ao chõ em frente ao 492, sem ter coragem de bater àquela porta que já havia sido meu refúgio tantas vezes, mas que agora estava permanentemente trancada. Pelo lado de dentro.
Minha visita não se estendeu por muito longe, pois logo ouvi vozes na escada. Uma feminina, conhecida, outra masculina. Desci pelo lado oposto e arremessei meu guarda-chuva ao alto assim que ganhei a rua. Caminhei por mais de uma hora sem destino certo, sem idéia nenhuma. O vento frio atravessava meu casaco molhado e doía como se agulhas estivessem sendo cravadas na minha carne. Meus pés estavam gelados, minha cabeça latejava.
parei sob uma luminária na esquina e tirei meu cigarros do bolso interno da jaqueta. Inútil, a chuva e o vento sequer permitiam que eu acendesse meu maldito cigarro. Sem mais forças, sentei à calçada e chorei. Solucei. Esmurrei o asfalto com o punho cerrado, e vi meu sangue se misturar à poça d'água que se formara aos meus pés. Afastando o cabelo do rosto, mirei aquele jovem que me encarava. Olhei em seus olhos o mais fundo que pude. Levantei e joguei o maço de cigarros no lixo. Achei o caminho de casa, tomei um banho quente e dormi por dois dias ininterruptos. Nunca mais voltei ao 492 do número 3584. Nunca mais fumei. Nunca mais me perdi na chuva. Nunca mais esmurrei o asfalto. Nunca mais vi aqueles olhos verdes refletidos na água.
Mas até hoje, toda vez que fecho os olhos, posso ouvir um par de vozes subindo a escada.
- poema sem título -
Discuto em silêncio as possíveis razões
E providências que, sozinho, posso tomar.
Para lidar com estas tais situações
Em que o coração já não bate, só faz apanhar.
Com meu dedo na areia vou traçando o destino,
Desejo tudo aquilo que vem para o bem.
Deixei para trás aquele jovem menino
Que um dia sonhou em ir mais além.
Cadê meus amigos?
Não estão comigo
E não sei também se em outra parte estão.
Vou seguir meu caminho
e continuar sozinho,
Acompanhado somente do meu violão.
E providências que, sozinho, posso tomar.
Para lidar com estas tais situações
Em que o coração já não bate, só faz apanhar.
Com meu dedo na areia vou traçando o destino,
Desejo tudo aquilo que vem para o bem.
Deixei para trás aquele jovem menino
Que um dia sonhou em ir mais além.
Cadê meus amigos?
Não estão comigo
E não sei também se em outra parte estão.
Vou seguir meu caminho
e continuar sozinho,
Acompanhado somente do meu violão.
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